release

Nasci em 85, auge da explosão do rock brasileiro. A juventude entoava os versos de “Será” com uma dinamite de esperança no peito. A mesma juventude que assistia a seu primeiro Rock in Rio e se preparava para o fim do dia que durou 21 anos. Era a queda do regime. A ressurreição do país. E a morte de Tancredo. O Atari 2600, da Polyvox, era a sensação tecnológica da época. E hoje, 31 anos depois, quem diria que toda tecnologia já nasceria morta, ultrapassada, escrava da próxima. Na TV, Roque Santeiro era o campeão de audiência. Mas, se me coubesse consciência na época, eu trocaria fácil Sinhozinho Malta e Viúva Porcina por Juba e Lula. Senna ganhava suas primeiras corridas e dava início à sua brilhante trajetória como maior piloto da história. Orson Welles morria, Cora Coralina também. Cazuza lançava seu primeiro disco solo. Proust era campeão mundial pela primeira vez. Reagan implantava seu programa de defesa espacial chamado ‘Guerra das Estrelas’. Rambo II explodia nos cinemas como campeão de bilheteria.

Em 2014, vinte e nove anos depois, lancei meu primeiro livro, Uma pedra em cada por enquanto, e causei, ao mesmo tempo, encantamento e estranheza. Virei personagem. O carinha metido a escritor que colocou uma mochila nas costas e foi pra São Paulo e pra Brasília lançar seu livro sem projeção nacional alguma. Só com o dinheiro das vendas de Parnaíba e Teresina e algum dinheiro emprestado de amigos bem próximos. Quase 30 anos após Senna ganhar sua primeira corrida.

Enquanto o Brasil passava por seu pior vexame na história do futebol diante da Alemanha, eu conquistava meus maiores troféus. Tão grandiosos quanto invisíveis a qualquer olho que não o meu. Viver de arte, mesmo com tantas dificuldades, parecia irreal. Mas, estava acontecendo. Desde que decidi parar de fingir e fui viver, correr riscos, fazer pulsar o coração com o abismo que há entre sonho e realidade.

Em 2016, lancei Dolores (e os remédios pra dormir), meu segundo livro e o primeiro transmídia, com música, clip e fotografia. E fiz minha primeira turnê pelo nordeste trinta e um anos depois do Atari, de Porcina e de “Será que vamos conseguir vencer?”.

Leia meus livros e repare bem nas entrelinhas. Foi pra lá que fugi e nunca mais voltei.