O que Paulo Leminski diria a João Dória?


“O grafite está para o texto assim como o grito está para a voz”

O maior painel em área da América Latina, que homenageava Chico Buarque e Ariano Suassuna, apagado pelo cinza de Dória

Para uma plateia de estudantes, professores e intelectuais, um inquieto Leminski divaga – ciente de qualquer possível rejeição – como um iminente filósofo punk em sua característica erudição pop. E com maestria, contextualiza os fatos, pontua momentos históricos, liga os pontos e os arremedos sociais, cita Foucault e chega à amplas conclusões sobre o processo prisional da cidade. Pouco antes, ele destaca uma galeria de “Grafites na prisão” exposta no Museu da Imagem e do Som como uma redundante ligação do crime com crime, elevando ainda mais essa perspectiva de marginalidade no ato de grafitar. E como não o considerar quando há, sim, danificação do patrimônio alheio? Ora, se gasto com minha propriedade e outro se apropria da mesma como elemento para seu berro no ouvido do mundo, é claro, é evidente, que isso é violento. E todo ato de violência é, portanto, um ato criminoso.

É preciso cavar para mostrar como as coisas foram historicamente contingentes, por tal ou qual razão inteligíveis, mas não necessárias. É preciso fazer aparecer o inteligível sob o fundo da vacuidade e negar uma necessidade; e pensar o que existe está longe de preencher todos os espaços possíveis. Fazer um verdadeiro desafio inevitável da questão: o que se pode jogar e como inventar um jogo?

Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa.

Foucault

É realmente difícil dissociar o grafite como forma de expressão e o grafite como dano. O que seduz, segundo o próprio Leminski, é a ideia de violentar a brancura da paisagem urbana e usar a cidade como pele para que o indivíduo, enquanto ator inconformado, marginalizado e, na maioria dos casos, totalmente levado por uma onda arrebatadora, se aproprie do impróprio pra criar seus manifestos onde eles jamais poderiam estar. Aqui está o tesão primário da coisa, a pedra fundamental do picho.

Mas, o que ocorre quando a cidade é vivida como cela? O que ocorre quando há nos indivíduos o cruel processo de estrangeirismo? No momento em que concordamos com a criminalização aqui citada, é claro que, automaticamente, deveríamos levantar a pauta da violência simbólica que a cidade, enquanto espaço a ser ocupado pelas próprias pessoas que desconhecem seu poder sobre ele, exerce sobre os próprios indivíduos. E aqui entramos no velho refrão do elo mais frágil. Essa corrente político-social jamais vai romper do lado que oprime, que desdenha das demandas sociais, especialmente das demandas da juventude que, historicamente, é sempre o aspecto mais incompreendido em qualquer espaço. Mas, de qual juventude estamos falando? A favela e a elite grafitam. Ambas gritam. E há um abismo descomunal entre estas vozes. Um abismo que ninguém está disposto a entender.

Em nenhum momento, Leminski busca diferenciar os termos grafite e picho, apesar de citar ambos de forma totalmente aleatória. Ora falava grafite, ora picho. Sem diferença alguma. Talvez pra ele pouco importasse o debate semântico. A verdadeira diferença está na guerra ideológica que é a ideia de cidade. Como é, por exemplo, a “Cidade linda”, de João Dória. E o que é esta contraditória e subjetiva cidade, criada pelo novo prefeito de São Paulo?

Em sua concepção bruta, é uma cidade livre de sujeira e pichações. Ao menos, em primeira instância, o picho era o inimigo. Mas, não foi o que aconteceu. Até imensos e históricos grafites, como o que homenageava Chico Buarque e Ariano Suassuna, o maior em área da América Latina, foram violentados pelo “cinza mão de ferro” de Dória. A Avenida 23 de Maio foi outra. Com algumas poucas exceções, a maioria dos grafites foi acinzentada em prol da “Cidade linda”, já que, segundo o próprio Dória, pra reforçar sua obsessão pelo conceito de beleza que ele mesmo criou, “não há polêmica alguma, todo mundo odeia grafite”. O mais engraçado vem em seguida, com o anúncio por parte da prefeitura de São Paulo da criação do Museu da Arte urbana, onde grafiteiros e muralistas são bem vindos, pichadores não. Alguém entendeu com clareza a perspectiva do prefeito que se veste de gari para uma autopromoção sem nenhum sentido prático?

E o que diria Paulo Leminski a João Dória? Será que o atual prefeito da maior cidade do país se juntaria à plateia que ouvia com atenção cirúrgica o discurso do poeta mais pop do Brasil? Será que aprenderia alguma coisa com as divagações filosóficas de Leminski sobre a estética urbana e a cidade como sistema prisional para a maioria dos indivíduos? Será que Dória aprenderia que uma Cidade linda é, antes de tudo, uma Cidade livre?


Ithalo Furtado