Afinal, qual o objetivo da arte?


O dia era 30 de janeiro de 2016. Faz um tempo, eu sei. O fato é que a noite seria uma verdadeira celebração no espaço do Café Concerto, em pleno coração do Sesc Caixeiral. Junto à Professora Shenna Rocha, eu mediaria um debate sobre o excelente livro de contos Parafilias, de Alexandre Marques, vencedor do prêmio Sesc de Literatura 2014 na categoria “Contos”, uma daquelas obras que te fazem mergulhar no submundo inconsciente das solidões urbanas. Nas entrelinhas do debate, Sonária Vasconcelos (de quem sou fã incondicional), faria intervenções com seu grupo de teatro sobre os contos do livro. Os atores destilaram sensibilidade imersos numa trilha sonora onírica, lúdica, arrebatadora.

Na sequência, uma série de pequenos espetáculos repletos de intensidade, protagonizados por diversas companhias e atores independentes. Cada um foi emocionante e envolvente num grau absurdo. Mas, abro um destaque para a atuação incrível da atriz Erica Jamp. Juro a vocês que é impossível descrever o que ela fez naquele salão. Uma das maiores representações do delírio que já presenciei. Erica foi acima de qualquer média possível. Inalcançável. Inatingível.

Ainda houve espaço para o audiovisual. O Grupo Metáfora nos conduziu até o cinema para apresentar uma sequência de curtas conceituais sobre as obras Contos de Mentira e Quiçá, da escritora Luisa Geisler, também vencedora do Prêmio Sesc de Literatura nos anos de 2010 e 2011. Destaco a sacada dos artistas Henderson Oliveira e Daniel Felipe ao descrever toda a melancolia de alguém deslocado dos padrões de euforia nacional. O militar obrigado a ser nacionalista balançando a bandeira brasileira foi genial.

Intervenção teatral no debate sobre o livro Parafilias, de Alexandre Marques

Mas se eu tivesse odiado tudo o que aconteceu no Sesc na noite de sábado do dia 30 de janeiro de 2016?

Bom, não há erro em pensar por si, apesar da opinião da maioria, apesar das iniciativas serem as melhores possíveis. É claro que fiquei encantado com o evento, mas, me cabe, sem pecado, o direito de ser indiferente ou mesmo crítico de tudo o que absorvo. E se faço isso sem precisar ofender diretamente qualquer um dos agentes envolvidos, estarei exercendo meu inviolável direito de pensar e emitir opinião sem a menor crise de consciência.

É agora que voltamos ao debate sobre o livro “Parafilias”, do início do nosso texto.

Depois de tanto instigar a platéia a participar do debate, conseguimos algumas intervenções e uma certa interação já no fechar das cortinas. E no apagar das luzes, alguém, aparentemente assustado com um dos contos de Alexandre Marques, onde ele relata a fantasia sexual de um homem que quer gozar nas omoplatas da mulher, tentou levantar, com nítido ar de deboche, nosso questionamento inicial: Qual o objetivo do autor em escrever isso? Isso é arte? Qual o objetivo da arte, afinal?

E ele mesmo respondeu: arte é uma expressão e precisa de um objetivo e ele, por sua vez, não conseguiu enxergar nenhuma razão na literatura de Marques.

Será? A arte precisa mesmo de um fim para sê-la? É preciso ter um objetivo claro para que você pegue um guardanapo num bar e escreva uma crônica sobre os mendigos do outro lado da rua? Serão precisos motivos bem definidos para você, sozinho no quarto, pegar um violão e compor uma canção que faça sentido somente pra você? É extremamente necessário um júri que dê valor às pinturas que você fez no sótão e jamais mostrou ao mundo? A arte precisa mesmo de um objetivo para ser arte? Expressão é sinônimo de mídia? É a morte do delírio? A escolarização da alma? Qual o próximo passo? Um DOPS no coração das pessoas?

O mundo é inundado de artistas que jamais apareceram seja por injustiça, seja por opção. Assim como está repleto de artistas reconhecidos e com público, seja no próprio bairro ou no mundo inteiro – uma banda de garagem, um Nirvana, um escritor independente, um Saramago. Se o objetivo da arte fosse passar uma mensagem, ela seria insuportavelmente chata e pequena. Arte não é autoajuda. Se o objetivo da arte fosse reconhecimento, ela seria terrível. Nem todo artista consegue e alguns só conseguem postumamente. Se o objetivo da arte fosse agradar ao público, ela se chamaria produto.

A arte é pura e simples. Talvez a coisa mais pura e simples que todos nós possuímos, junto com o direito inquestionável de sermos ou não compreendidos.