Os barcos


Madrugada. O sol já vê se formando no horizonte uma porta entreaberta. Neruda me acorda com sussurros de uma canção que não conheço, mas, que tem teu nome como refrão. Eu acredito. Acordo. Olho pra tua fotografia surda, sem brilho e vomito as estrelas que você me fez engolir quando te beijei pela última vez naquele ponto de ônibus horas atrás. Eu precisava disso. Já se formava uma galáxia no meu peito. Já se entreabriam janelas no meu senso.

Meia-noite. Prelúdio. Ouço Cartola enquanto o ônibus samba pelas curvas do centro. Nada de filtro nessa próxima selfie. Você me ama de qualquer maneira: chula, poética, inexpressiva. Cartola me fala do medo, do mundo e de como tudo pode, de repente, perder a graça e o motivo. As fotos não sangram como nós. Saudade só é possível em carne viva.

Madrugada. Delírio. Eu peço a Deus ou a qualquer diabo um pouco de paciência com alguns sentimentos. O tempo que te dedico não daria um frame de um filme de Fellini. Paciência. Ela ainda não entende certas ausências, assim como eu também não entendo como ainda posso ser tão fugaz. Eu sou teu, não sou? Eu sou teu? Eu sou?

Tu és. Assim como nada. Assim como nunca. Tu és o sol entrando pela porta entreaberta do mundo para me invadir de cheganças e lonjuras. Para me inebriar com tuas mensagens que cheiram a sonho, sexo e sábado. Entenda. Meu coração, libertino coração, é inafiançável. E você ocupa o lugar desse deus pagão no meu altar vazio. Mas, paciência. Não dedique tantas horas de sua confiança ao que sai da minha boca. Onde já se viu pagar fiança aos pássaros?

Belchior. Foi ele. Aquele desgraçado! Eu lembro! Na madrugada do nosso primeiro encontro. Surgiu numa nuvem de fumaça, me entregou um guardanapo velho e foi embora pela gaveta. “Meu coração, cuidado, é frágil”, dizia em letras tontas, bêbadas. Paciência. Não existe amor até o primeiro ato de crueldade. Antes disso, é apenas fascínio, encanto, doença, delírio.

Madrugada. Tudo basta. Tudo pulsa. Teu nome tem o peso do que não fomos. Fico procurando aquela jura da hora primeira. Mas, de tão breve, esta se tornou efêmera ao barco da memória. Porque amar o que machuca talvez seja um dos grandes mistérios do amor. Não se ama por oxigênio, tampouco por alicerce. Ama-se o improvável de tudo. Amar é dar adeus às certezas do mundo. E é por não entender a estranha lógica do amor que o peito dói tanto tentando compreender o que não foi feito para tal.

Partir não está ligado ao ato de reconstrução. Há quem parta exatamente porque cansou das coisas no lugar e da respiração sem ofegância.

Há quem parta porque não suporta mais a falta de fragilidade do outro. Essa mania de demonstrar força a todo instante cria muros psicológicos ao redor da nossa doçura.

Há quem parta porque cansou de ser chamado pelo nome todos os dias. Quem ama, esquece o protocolo. Arromba a porta. Puxa o impensável pelos cabelos.

Há quem parta por amor aos navios
Há quem parta por amor ao mar
E há quem volte por ser dor
Há quem volte por se dar

Amar é sempre mastigar o pedaço intragável das nuvens.


Créditos da imagem: Kyle Thompson