A casa


Portas fechadas. Janelas. Cerradas. Com o aço de nossas solidões. O coração, trem desgovernado, prossegue. A mentir pro dia com fotografias sem denúncia nas últimas postagens de meu instagram. Lá, meus olhos vazios parecem ter vida segundo a noção rasa de toda a gente que visita.

A casa. Portas, janelas e porões fechados. Tudo é quanto. Tudo basta. E o sol é uma lenda contada à exaustão para todos os cômodos. Assoalhos sujos. Telhas quebradas. Espelhos manchados. Vento. Onde? Todos os basculantes foram interditados com cimento e preguiça. Os telefones não tocam há milágrimas. O computador não funciona há minúcias. E a televisão é uma lenda que me conta suas verdades à exaustão. Há dois. Pratos. Na mesa. Como se fosse. Como se. Chego a acreditar nos reclames e novamente volto a lembrar dos quadros tortos na sala de estar. Aquela sou eu, entre o Debret das aranhas e o ballet dos insetos. Chove. Me prendo. Antes que.

A casa. Se abra em desalinho com o que basta. E basta esse perfume de distância. Casta. Há de ser, ao menos, por menor que seja dentro (e aqui tudo é tão imenso), ainda que mal. Com dois pratos. Na mesa. Sem a certeza de quem os colocara. Não recebo visitas. Há quanto? Correio, contas atrasadas, jornais ultrapassados, panfletos de uma loja em promoção. Há quanto? Convites de formatura, propostas de emprego ou mesmo um pedinte estendendo a mão por um pouco de qualquer que me valha. Há quanto? Fofocas de vizinhos, convite para cultos, sexo fácil, drogas baratas, quitanda, mercado, banca de jornal. Sigo. Ávida. Lúcida. Como se fosse. Como se.

A casa. Janelas e portas arrombadas. O mundo está repleto de. Arrombadores. De inconfessáveis. Sempre preferi. Calar. Silêncio é urgência. É um escritor fracassado dormindo no sótão. Palavra é. Um médico. Tentando construir um viaduto no espaço. Calo. E assim, urgentemente, me dou o direito de ficar falada. Há muito que se comentar sobre quem nada pronuncia. Sobre quem não narra suas manhãs ou transforma suas dores em crônica. Quarto e sala. Quarto e sala. A divisão de quem se basta. Solidão e súplica. Solidão é súplica. Por sol. Aquela lenda. Aquela fenda que nada transpassa. Jamais. Nem fresta, nem rachadura. Das prisões que o mundo me impôs, escolhi a auto perpétua. Me basto. Até quando? Há dois pratos. Na mesa. O vazio é o que sirvo a quem entra sem bater.

A casa sou eu.


Créditos da imagem: Kyle Thompson